Descrição
João Sevivas é um criador de experiências, ideias, sensações.
Seja a tinta, o barro, o papel, a madeira, a pedra tudo lhe serve para despoletar o diálogo criativo entre a obra de arte e o espetador que, nessa reciprocidade, também ele se torna criador da obra que vivencia.
Há uma constante procura de comunicar, de nos interpelar, de provocar a vida, pela forma, cor, som, em que o todo se afirma numa originalidade pujante, desbravada pelo contínuo ato criativo.
Na colagem sem título de João Sevivas, o olhar encontra-se suspenso entre fragmentos de cor e ritmo. As superfícies azuis e castanhas não se organizam em narrativa óbvia, mas convocam uma geografia de instinto – como se fossem mapas interiores, territórios emocionais onde o acaso e a intenção se fundem. O branco do fundo atua como respiração, espaço de pausa, permitindo que cada recorte dialogue em tensão com o vizinho.
Há uma composição uma sensação de paisagem em metamorfose: um rio que se desfaz em linhas, árvores despidas da sua forma natural, talvez reflexos partidos em água. O gesto livre, longe de ser ingenuidade, revela frescura – um desapego à rigidez da tradição académica que abre espaço ao inesperado. A irregularidade dos recortes e o contraste das texturas aproximam o espetador de uma experiência quase táctil, como se fosse possível percorrer com os dedos os desfiladeiros e montanhas inventadas pelo artista.
Sevivas trabalha com a precariedade e a liberdade do fragmento: cada pedaço parece querer escapar à ordem, mas é retido pela mão que os cola em harmonia precária.. É uma arte do intervalo, da sugestão, onde o inacabado se afirma como força poética. Ao não nomear a obra, o artista devolve ao observador a tarefa da leitura: cada olhar reinventa o que vê, cada silêncio completa o que falta.
No gesto criador, há autenticidade – uma procura que não pretende exibir virtuosismo, mas explora a simplicidade do corte e da cor como forma de invenção. O resultado é uma paisagem simultaneamente íntima e universal, um espelho fragmentado onde se entrevê a própria condição da criação: sempre incompleta, sempre a meio caminho entre a ordem e o caos.

